Sobre não acreditar mais em amizade

Publicado em afetos

Sempre fui uma amiga ausente, que se distanciava, queria ficar só e não convivia regularmente com os amigos, apesar dos apelos. A proximidade excessiva me incomodava muito e, algumas vezes, os amigos ouviam o meu clássico: me deixe sentir saudades.

Mas, há pouco mais de dois anos, uma perda que tirou um pedaço de mim transformou isso. A morte me ensinou que aqueles clichês de aproveitar o tempo com as pessoas de forma intensa eram verdades. A desgraça me ensinou que valia a pena me entregar às pessoas, às amizades, aos afetos. E o fiz. Passei a conviver mais com os amigos pelos quais eu nutria sentimento forte de carinho e pertencimento, abri minha vida a conhecer outros e confesso que isso foi uma das coisas mais maravilhosas que me ocorreram. E mais tristes.

Quando eu me abri às amizades, confiei nas pessoas e nos seus afetos declarados, fui traída, fui alvo de uma fofoca tremenda e absurda por uma pessoa incomodada com minha vida sexual e infeliz o suficiente pra não deixar a vida dos outros pra lá, eu abri os braços pra alguém que depois mentiu a meu respeito, quase rompendo outros laços de amizade, tentaram tirar a confiança de uma amiga em mim com “pulgas” e, mais recentemente, há alguns dias, me mandaram recolher as lágrimas pelo medo e a preocupação com mais um amigo, que quando ouviu palavras duras (necessárias), me chamou de otária.

Isso deixou meus últimos dias quase insuportáveis, me derrubou de tal maneira que tudo que vinha acontecendo nos últimos tempos veio à tona, com o gosto amargo da decepção, de mais uma delas. Isso me fez descobrir que, o que aparentemente tinha passado, estava quietinho ali no canto, que o perdão não tinha sido completo, ainda que eu mesma acreditasse nisso.

E então hoje eu fiquei pensando que a única maneira disso passar é não confiar mais, é não ceder mais, é não oferecer mais minha amizade às pessoas, porque ela é tão intensa que destrói tudo. A minha própria forma de oferecer amizade fez com que eu deixasse de acreditar na amizade.

No momento, não confio em ninguém, não sou amiga de ninguém e não acredito em ninguém que me fale sobre amizade. Lamento, não acredito mais em amigos declarando amor, não acredito mais em nenhum de vocês.

O inferno não são os outros e não sou vítima de quaisquer circunstâncias, apenas não acredito mais.
That’s all!

hilda e a reconciliação com a poesia

Publicado em li num livro

andava afastada da poesia há alguns anos. outrora sonhava em ser poeta.
hilda tem me reconquistado. é como se fossemos duas amigas afastadas que, aos poucos, começam a sentir falta uma da outra e se reaproximam ainda tímidas, mas sabendo que aquele elo nunca se rompeu.

hoje li:

De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura

Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.

Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem

A enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando

- Fazedor de desgosto -
Que eu te esqueça.

daqui

medo

Publicado em inenarráveis

ontem eu tomei banho e me preparei para sair. queria ir ao mercado comprar algumas porcarias e outras coisas que faltavam em casa, mas quando cheguei à esquina de casa travei, fiquei alguns minutos parada e voltei. tudo bem, creditei à preguiça, visto que havia passado o dia inteiro na cama. eu já havia falhado a um compromisso pela manhã, que creditei ao fato de ter chegado em casa às 4 horas, depois de uma noite ébria com amigas.
hoje eu havia prometido ir à praia, mas fingi não estar em casa quando passaram aqui. não queria sair, não conseguia passar da porta.
à tarde, tive vontade de comer um chocolate, mas arrepiei só em pensar em sair de casa. agora à noite, meu cigarro acabou, mas tive medo de ir ao posto, a uns 200 metros de casa…
foi então que me dei conta de que havia passado um final de semana inteiro sem que eu tivesse coragem de sair. foi então que me dei conta de que amanhã é segunda e eu tenho uma rotina de compromissos a respeitar. e desejei não tê-la, questionei sua validade. pavor.
a última vez que tive uma crise como essa foi no dia em que soube que meu irmão não sobreviveria. amanhã seria aniversário do pai, não sei se tem a ver.
sei que estou aqui, com a garganta fechada, depois de um banho quente e 3mg de algo que deveria me relaxar e dormir, mas só consigo morder os lábios, sem entender nada.
uma necessidade absurda de um abraço impossível. amargo.

Canto à Tristeza

Publicado em soltos

sadness

Não tenho vocação para a tristeza. É muito comum me ouvirem dizer isso. Não as alimento, não cultivo tristezas intermináveis, não acho bonito ser triste. Acho estúpido o argumento que defende que “só os ignorantes são felizes”. Acho o romantismo exacerbado da tristeza realmente estapafúrdio. Acho triste.

Mas reconheço que ela pode ser bonita, pode ser criadora, libertadora!

Frida Kahlo criou aquela imensurável beleza a partir da dor e da sua vida triste, limitada pela série de tragédias às quais foi submetida; Sylvia Plath escreveu poemas que são fisgadas no coração, pela tristeza da perda do amor; Kafka foi vítima de um pai tirano, nunca se recuperou da infelicidade amorosa e, apesar disso, escreveu obras de tamanho refinamento; Nietzsche fala da dor e o primor da tristeza como elemento criador… é infindável a lista de poetas, proseadores, pintores, compositores e afins que criaram sob o jugo de um momento de tristeza ou mesmo sob uma vida toda delas.

E é bem isso que eu espero dessa tristeza que tem teimado em me acompanhar há algum tempo. É uma tristeza de inquietude e de questionamentos. É uma tristeza mansa, silenciosa. É uma tristeza social, que tem me feito desconfiada, às vezes até arisca. Sinto que ela tem, de alguma maneira, me protegido de algum perigo. Não a alimento, mas ela continua aqui, matrona, definindo as regras desse nosso convívio. Que seja breve, porque eu me canso fácil e posso me cansar dela também. Mas que seja inspiradora de sorrisos futuros e bonitezas, merecedora desse canto.

um sussuro

Publicado em afetos

Quando você recebe um e-mail onde está escrito: Leia, é uma forma de sussurrar algo. Nunca te esqueço., você lê. E lê, especialmente quando ele vem de uma das pessoas mais importantes da sua vida. Uma pessoa que, da forma mais surpreendente possível, se tornou importante pra você. A frase, eu não me ajeito com os padres, repetida um sem número de vezes por mim, tem uma exceção absurda. E o autor deste texto é essa exceção. Sim, ele foi escrito por um padre, de quem fui bolsista de iniciação científica na universidade por quatro anos, com quem eu descobri uma causa, com quem eu tenho uma das amizades mais bonitas que alguém pode ter. Não poderíamos ser mais diferentes um do outro, mas algumas coisas são tão comuns e tão belas de compartilhar, que me emocionam. Ele fazer parte da minha vida já me emociona.

Hilário Dick, o velho neotéfilo, está de aniversário hoje. E, como de praxe, ele mandou um presente para os amigos. O presente é bonito demais pra guardar, por isso, reproduzo-o abaixo:

Manifestação e Acolhida: reflexões de aniversário

Podemos dizer que o dia do nascimento é o dia da nossa “manifestação”, embora nos tivéssemos “manifestado” já antes, no ventre materno, nem sabendo mais como… Sem sermos vistos, éramos visíveis, através da mãe. Éramos olhados. Claro que, hoje, já nos olham antes, crescendo na total dependência, e até tiram fotos nossas, preparando-nos para nos manifestar. Já sabem se somos isto ou aquilo e ficam esperando o dia em que nos “manifestaremos”.

“Nascer”, manifestando-se, é sair, pela energia da natureza, da dependência agradável do carinho de quem nos ama. “Nascer” é uma aventura para a qual ninguém nos pediu permissão.  Ninguém pode dizer que nasceu porque quis. É duro, desconfortável, ameaçador “nascer”.  Além de chorarmos, as pessoas se alegram quando nascemos e choramos. “Nascer” é um presente que somos obrigados a aceitar… Um dom que nos é dado – dizem – com jeito amoroso e divino.  Se não for assim, quanto fundamento a ser reconstruído! Sempre nos horrorizamos com o desespero de Jó dizendo morra o dia em que nasci e a noite em que se disse: um menino foi concebido (Jó, 3.1).

Em todo o caso, desde o começo, esperam de nós uma resposta e nem sempre as respostas são agradáveis. Nascemos renunciando… Sempre, desde o começo, estamos diante de uma proposta de amor. A vida, enfim, se resume numa resposta a uma proposta. “Deus soprou-lhe nas narinas… e ele/a tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7), porque ser vivente era bom. A árvore da vida “estava no meio do jardim” (Gn 2,9), não na periferia.  A vida está não está em cima nem em baixo; ela está no centro porque no centro está Deus. “Eu lhe propus a vida ou a morte. Escolha, portanto, a vida” (Dt 30, 19). Como é bonito ver, descobrir, degustar que a liberdade não se compreende fora da geografia do dom. Depois da ressurreição sabemos que a vida é mais do que um sopro. O sopro de Deus foi um convite para a eviternidade. Como diz o sofrido e o esperançoso Jó, o sopro de Deus que me criou, me deu vida (Jó 33,4). É preciso descobrir, pois, que na sabedoria dessa aceitação, é que se encontra a vida.

Contudo, não podemos ficar na “vida da gente”. A vida é um horizonte porque, como diz o Evangelho, “quem procura conservar a própria vida,  vai perde-la. E quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la” (Mateus 10, 39). Não sei se estou conseguindo viver isso, mas é uma verdade que me comanda há muito tempo. Ser vida, nascer, é nascer para a alegria e o gozo dos outros. O Evangelho também diz que “quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la” (Mateus 16,25). Lucas fala de preservar. Lemos, por isso, igualmente, Jesus “veio para servir e para dar a sua vida como resgate” (Marcos, 10, 45). Fico perguntando-me, por isso, o que é ter um projeto de vida, o que é uma causa? Uma vida que não seja doada não é vida.

Neste dia de minha “manifestação” gostaria de dizer que estou gostando de viver. Agradeço a Deus e a todos que me estão dando essa chance. Fico pensando na família que foi nosso primeiro ninho, mas que é preciso abandonar, por vezes amando de longe, espiando pelos mais variados sentimentos. Fico pensando nos educadores/as que, com seu jeito de pelicanos/as, sempre procuraram dar-se da melhor forma para que a vida nos sorrisse. Fico pensando nas “instituições” onde vivi, trabalhei, sonhei, pelejei e ri. A gente recebe e deixa parte de nós em muitos espaços. Gostaria de “agradecer”, por isso, a acolhida que tive. Embora a vontade nossa seja de acolher, somos mais acolhidos que acolhedores. Por isso teremos certamente a eternidade para nunca acabar de agradecer. É que a “manifestação” não existe sem “acolhida”. A todos e todas, o meu simples, solene, sincero, alegre, animado, vibrante, humilde, gostoso, humano agradecimento à VIDA que borbulha, borbota, acachoa e marulha nos 74 anos que inicio acompanhado dos cuidados de vocês.

P. Hilário Dick S.J
12 de maio de 2011

A vida é bonita demais quando temos esses proseadores tão poéticos.

Obrigada, vecchio.

no ipod: retratos, pu-erh tea e afetos

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[ou um ano bom: parte dois]

Enquanto dividiam um guarda-chuva e atravessavam a rua, Henrique perguntou:
- Cátia, tu sente falta daqui?
Ela hesita uns dois segundos e responde:
- Não! Da cidade, não mais. Sinto falta das pessoas. Gostaria de poder levá-las comigo.
Ele diz:
- Seria bom se pudéssemos levar as pessoas no iPod, junto aos mp3s.

Esse foi o diálogo do meu final de semana na minha cidade, na rápida visita de três dias ao lugar onde morei por 29 anos, ou, onde morei toda a minha vida. E foram três dias bons, gostosos, serenos, de paz e encontros. Mas foram três dias longe de casa. E longe de casa, pra mim, significa muito. Apesar de ter morado a vida inteira naquela cidade, pela primeira vez, ela não era mais a minha cidade, não era mais a minha casa, era a casa da minha mãe. E o significado disso é uma certa dose de melancolia junto a uma certa realização.

A melancolia é por aquela sensação de que algumas coisas muito minhas não voltam, por saber que os momentos outrora vividos ali só ficaram em lembranças e não são minimamente passíveis de toque, de renascimento, de volta. A melancolia é também porque os abraços mais significativos da história da minha vida agora precisam de data e hora marcadas, precisam ser planejados. Nada de ligar à uma da manhã e solicitar a presença. Nada de pular para o quarto ao lado e pedir colo. Não estão disponíveis assim. E isso, inegavelmente, é triste, aperta o coração.

Claro que a realização pelo que agora se tornou real traz junto consigo novos sorrisos, novos momentos… novas pessoas a quem pedir e dar abraços, novas pessoas pra pular no quarto à noite [ui!], novas pessoas pra pedir colo, novas pessoas disponíveis quando você precisa delas. Novos afetos. Mas a realização também é aquela da independência, da outra vida, de outras prioridades, da mudança, da privacidade, da responsabilidade, dos novos tombos, calos e cicatrizes.

Nas demais vezes que voltei à Novo Hamburgo, vinha carregada de malas de objetos, de apegos, que, de alguma maneira, significavam o quanto eu ainda estava presa ao lugar, à história. Minha maneira de não apagar a história era trazendo-a sem critérios pra cá, era me cercando do que me era seguro, do que era cômodo.

E quando estava a caminho de casa [sim, Floripa é hoje minha casa], percebi que os critérios eram outros. Minha mala [que nem era uma mala, mas uma bolsa] vinha com outras essências, significativas. Vinha repleta de chás e fotografias. Sim, outro modus operandi. E então entendi que isso era confortável, que eu estava segura do meu círculo.

Tão confortável que, serenamente descobri que me basta apenas o iPod. Nele, retratos, chás e afetos. E assim, trouxe junto as pessoas.